Clube de Xadrez de Blumenau

Fundado em 09 de março de 1917
Declarado de Utilidade Pública pelo Estado de Santa Catarina Dec. Lei número 3897 de 26 de setembro de 1966
e pelo Município de Blumenau Lei nro 1469 de 27 de dezembro de 1967 CGC 82.666.850/0001-98





Colunas
Antonio Bambino Filho
Heidy Almeida


CAPIVARAS: Ignorem a Siciliana!


E também a Francesa, Caro-Kahn, Índia de Rei, Ruy Lopez e tantas outras!

Ok, dois termos pesados, então os explico: por Capivara, entenda-se o jogador iniciante/intermediário, e não o Capivara mais experiente (afinal, somos todos Capivaras!), que quer melhorar o seu entendimento de xadrez. E por ignorar, quero dizer não dar muita atenção, não gastar tempo com isso.

Por quê?

Quando eu dava aulas no Clube de Xadrez, não era raro convidar alguns deles pra jogar partidas relâmpago (com 3 minutos pra cada jogador pensar), onde nitidamente jogavam lances decorados vistos em revistas, programas ou em tantos sites que transmitem partidas ao vivo. Neste momento, eu costumava jogar um lance completamente incoerente apenas pra sair do senso comum e o aluno logo se atrapalhava. Afinal: "Por que não jogou o que o GM jogou?".

Cito também um exemplo capivarístico meu. Nos anos 90, quando estava aprendendo a anotar e ver partidas, caiu em minhas mãos uma revista espanhola que tinham as partidas de Kasparov vs. Deep Blue. Naquela época, eu e meu irmão (Marcelo Bambino, também jogador de equipes de Blumenau e multi-campeão em diversas categorias em brasileiros e estaduais) jogávamos o "feijão com arroz" - a Partida dos Quatro Cavalos e a Abertura Italiana, que são jogos comuns aos iniciantes.

Mas não naquele dia! Fiquei empolgado ao ver Kasparov jogando aquele peão da coluna "c" e estava ávido para impressionar alguém. Convidei meu irmão pra uma partida, e após 1. e4 c5 ele fez uma cara de espanto, ficou me estudando por um tempo e seguiu com 2.Cf3 d6, 3. Cc3 (diagrama abaixo).



E aqui, pela primeira vez eu realmente olhei a posição. "Meu bispo negro não sai!", "a dama vai pra onde?" foram os pensamentos que me atingiram no momento. Achei que o objetivo do avanço do peão "c" era muito claro: deixar uma diagonal aberta para a dama! Joguei o incrível 3…Da5?, o qual ele respondeu 4. Bc4 e, alguns lances pra frente, me massacrou.

Minha sugestão aos jogadores que querem passar de um Capivara para um menos Capivara: estudem conceitos, não aberturas!

Tática (desvio, cravada, duplo, descoberto, cálculo e Estratégia (estrutura de peões, domínio do centro, roque) são muito mais importantes, pois fazem o jogador ganhar músculos. Ao jogar torneios, por mais que não entendam muito das aberturas, os conceitos devem levar o jogador a colocar as suas peças de maneira mais "estética". À medida que evolui, o entendimento do porquê de certos lances na abertura vai sendo clareado e a informação vira conhecimento, e não "decoreba".

Aquelas rodinhas de alunos frente a um tabuleiro com uma posição de livro, onde o professor fala: “escrevam nos papéis ideias para ambos os lados” é muito mais produtivo do que pegar uma árvore do Fritz ou Chessbase e ver os lances mais jogados nas aberturas. Pode ser que essa “decoreba” leve o jogador a algum resultado de início, mas a deficiência das bases se fará notar nos jogos em breve. Por isso, sugiro a você, interessado em sair daquele nível “escolar”, que pegue livros conceituais, de estratégia e tática, e largue as árvores dos programas de análise! Se eu puder ajudar com alguma sugestão, pode entrar em contato comigo pelo e-mail bambinofilho@hotmail.com

Deixemos a Siciliana para quando virarmos Kasparovs! Por enquanto, fiquemos no feijão com arroz...

Antonio Carlos Bambino Filho (ELO: 2175) joga xadrez há mais de 10 anos. Trabalha com redes de computadores (formado em Ciência da Computação, pós-graduando em Engenheria de Software) e dá aulas particulares de xadrez por Skype ( nome Skype: antoniobambinofilho ). Campeão brasileiro sub-18 em 2006, bi-campeão catarinense sub-20 em 2008/09. Campeão do Circuito Catarinense Adulto em 2007.